Melbourne

Segunda maior cidade do país, a capital do estado de Vitória funciona como se fosse uma São Francisco americana: bondinhos, prédios vitorianos, arte de rua, barzinhos. E é a casa do AC/DC, então, merecia ser conhecida. Fica a uns 800 km de Sydney e a oferta de vôos é grande.
É um lugar que daria pra passar dias apenas com caminhadas pelas ruas e lojas estilosas. O rio que corta a cidade com modernos prédios em torno deixam o passeio pelas suas margens muito bonito, talvez, o lugar mais agradável da cidade. Contudo, é a sua noite que mais me chamou a atenção: as ruas iluminadas pelos restaurantes e bares, um mais interessante que o outro.

Visitei a AC/DC Lane, que é um reduto de grafite e bares com bandas de rock pra tomar cerveja. É como tantos outros becos com pixação espalhados pelo mundo onde pode-se tirar fotos instagramáveis. Mas tem um apelo turístico irresistível com os bares de rock e as bandas ensaiando durante o dia, ou de algum casamento com os noivos num conversível que pararam ali pra fazer ensaios.

Fui a um estádio num jogo das finais de um campeonato. Por puro acaso passamos pela praça do estádio de Melbourne, onde havia uma multidão. Era exatamente a hora do jogo. Perguntei, na bilheteria, se haviam ingressos. Não sabíamos nem que esporte era, nem quais times. As torcidas pareciam aquelas de seriados, cada uma vestida com a sua cor. Não adiantou muito perguntar, essa foi, aliás, uma dificuldade que tive no país: a simpatia do australiano é grande, mas, o sotaque, muito forte. Quase nunca entendia as repostas que davam às minhas perguntas.

O estádio estava lotado… para um jogo de críquete. Essa talvez seja minha maior crítica à países de colonização inglesa: a porcaria da mão no trânsito e o gosto duvidoso para esportes. O evento em si, é muito divertido: tomar cerveja, comer cachorro quente e ver os telões – o tempo todo – fazendo alguma graça pra entreter o público. É um programa bem família, com muitas crianças. O evento em si é mais importante que a paixão pelo clube, em nada comparado com o que temos com nosso futebol. Já o jogo… que bagulho chato. É um bets, 4 jogadores no meio de um campo de um estádio enorme e uma bolinha menor que a de tênis. Mal se acompanham os lances, saí sem saber quem ganhou.
Fui ao museu de tecnologia, uma coletânea de objetos nostálgicos. Entre vídeo-games antigos, um modelo do Interceptor V-8, o carro do filme Mad Max, que foi filmado lá. Tem o museu de história natural também, com Tiranossauros Rex pra nos lembrarmos que ali também era a Pangéia e os insetos de tamanhos descomunais que fizeram a fama australiana.

Nunca soube se era alguma história pra turistas, mas me explicaram que o horário comercial ia até às 5 da tarde pra que todo mundo pudesse aproveitar uma hora a mais de sol e lazer no dia. Pode até ser que essa não seja a razão, mas a parte de aproveitarem o sol é bem verdadeira. No centro de Melbourne, às 17 hs, em vez do trânsito engarrafar e as pessoas estarem todas agoniadas pra chegar logo em casa, elas saem dos prédios comerciais e enchem os gramados das praças. As áreas verdes enchem de funcionários de escritórios – mulheres levantando as saias pra tomar sol, os homens afrouxando as gravatas, numa grande cena de fim de festa de casamento ao ar livre. O espaço público sendo utilizado como lazer e sem aquele rush de chegarmos logo em casa pra, só então, sentirmos que o dia acabou. Tive inveja desse lifestyle.
O ponto alto em Melbourne foi estar lá bem na semana do festival de cinema que acontecia na cidade. Diversos bares tinham aglomeração de gente muito arrumada, tapetes vermelhos, fotógrafos… vi alguns atores, desconhecidos pra mim, mas que causavam burburinho na porta dos estabelecimentos. Talvez minha ótima impressão sobre a noite de Melbourne tenha sido por esse frisson de lugares cheios e pessoas animadas em todos os cantos. Fomos parar numa dessas recepções exclusivas, entramos num bar sem sermos barrados, com coquetéis e bombons Lindt liberados. Era alguma recepção sobre algo relacionado ao festival, mas, sem termos como perguntar a razão da festa, em algum momento, seguimos o passeio.
A despedida de Melbourne foi com uma daquelas noitadas memoráveis pra se guardar como história. Uma boate que escolhemos na última noite, onde decidimos por reservar uma mesa. Meu amigo pediu a garrafa mais barata do cardápio pra atendente. Trouxeram uma, fosforescente, nunca havia visto uma assim. Ela se plantou ao lado da mesa e, de tempos em tempos, perguntava se precisávamos de algo. Achei um ótimo serviço por poucos dólares. Logo mais, um grupo de ingleses – que disseram estar na cidade gravando um seriado – pegou uma mesa junto à nossa, compraram uma garrafa de vodka de litros – que custou um bocado – e, um sujeito carismático, líder do grupo, fez amizade conosco. Em certo momento foram embora – tão rápido quanto chegaram – nos deram a enorme garrafa e distribuímos bebida pra festa toda.

Na hora de irmos, vimos que os atores não simpatizaram conosco à toa, deviam ter imaginado que fôssemos da indústria também ou, playboys australianos. O cardápio tinha os preços impressos na sua dobra e o que parecia ser um “$”, era um “8”. Nós é que estávamos esbanjando, não eles. A conta foi paga porque não havia escolha, mas, a dívida… essa demorou.

“Se alguém souber se esse cara é famoso, me avise.”
Ballarat
Existe um passeio famoso e descrito como o mais bonito da Austrália, que é passar pela estrada litorânea sentido sul, até umas formações rochosas conhecidas como “12 apóstolos.” Alugaríamos um carro para fazer esse trajeto de 270 km e retornaríamos pela via do interior, parando em um parque na cidade de Ballarat, no período da tarde.
Na véspera, descobrimos que havia incêndios e muita fumaça ao longo da estrada – problema que pelo visto é recorrente lá – e, por consequência, o trajeto estava fechado. Desistimos do carro e fomos de trem diretamente para Ballarat, onde passamos o dia todo. Ballarat é uma cidade histórica, fundada no início do período colonial por causa da exploração de ouro na região. Então, tudo na cidade remete à uma vila colonial com ares de velho oeste americano. A cidade é bem bacaninha, tem prédios e museus que devem ser bastante caros aos estudantes australianos.
Contudo, meu foco eram duas atrações ali que eu havia listado como imperdíveis: o Ballarat Wildlife Reserve e Soverign Hill, que poderia ser visitado já que abrimos mão da road trip.
Ballarat Wildlife Reserve
A reserva de vida selvagem é onde finalmente eu poderia ver um canguru. Apesar de, no nosso imaginário, eles estarem por todos os lados no país, na verdade, são poucos locais que você pode vê-los pastando como vacas. E não só eles como inúmeros outros animais são criados lá. A reserva é um grande parque temático, no fim das contas. Os monitores ficam todos vestidos com uniformes de guardas florestais, inclusive com um monitor-mirim, uma criancinha que apresenta os bichinhos (que já não deve mais ser criança). Todas as espécies lá tinham algum representante famoso com página pessoal no Facebook. Alguns tinham sua rotina postada diariamente, como celebridades. Eu, inclusive, acompanhei por um tempo a vida do Patrick, um wombat famoso que ficou no colo e tirou foto até com Barack Obama. O wombat é uma espécie de capivara que você pode abraçar. O Patrick já faleceu, já era idoso quando o conheci. Vi um diabo da tasmânia, que não sai rodopiando e é só um gambá mais feio.

Meu amigo tentou tirar uma selfie com uma lhama, que nem é australiana, sem saber que elas cospem. Tomou uma na cusparada em cheio na cara. Queria ter filmado, mas, ri tanto, que o momento passou. Então, agora, deixo registrado.
Pude passar a mão num coala, que é um urso de pelúcia que se mexe. Um bichinho encantador, realmente.
Por fim, havia os cangurus. Existem dois tipos, os grandes e briguentos, que são mais agressivos e ficam separados e os pequenos, que parecem cachorrinhos caramelos. Você chama e eles vem, saltitando. Vendem saquinhos de amendoim para darmos a eles. O meu um avestruz tomou da minha mão.
Cangurus são criados para abate lá, a carne deles é uma das com maior índice proteico e baixa gordura no reino animal. Tem sanduíche de canguru, que eu queria muito experimentar. Mas, como conheci o bichinho antes de comê-lo, perdi a coragem.
São realmente muito divertidos e dóceis, é bem legal ficar entre eles, chamando-os e vendo os filhotinhos saírem das bolsas.

Também tem uma seção que explica o porquê de a Austrália ter os animais mais bizarros da fauna terrestre. O bicho pau deles não é um graveto. A aranha não morre com chinelo, o morcego não suga sangue: carrega embora. Chega a parecer brincadeira de mau gosto. Depois pesquisem no Google “insetos australianos”, e agradeçam o oceano nos separando.
Sovereing Hill

A outra atração lá, também temática e com cara de parque americano – mas com bastante autenticidade – já que não era um cenário, mas a própria vila convertida em ponto turístico, era esse mini-vilarejo do século passado. É um parque na medida em que você paga a entrada e anda pelas ruas visitando estabelecimentos que funcionam como atrações, com pessoas vestidas com roupas tradicionais, fabricando utensílios pra serem vendidos ou galpões com jogos disfarçados de bares e correios. Tem aquela tradicional foto envelhecida com roupas num cenário, um busto do Ned Kelly – um tipo bizarro de personagem que virou folclore lá: um assaltante de bancos que enfrentou a polícia usando uma armadura à prova de balas – além de tiro ao alvo, bocha e etc.

Pude assistir uma demonstração de como é feita a produção de uma barra de ouro e todo o brilho que o metal derretido emana, avaliada em meio milhão de reais. Coleções expostas de pepitas, barras e moedas de ouro. E uma visita às minas que é feito naqueles carrinhos de ferro de desenho animado, mostrando como era feita e extração pelos colonos. Termina com um a história áudio visual contando um milagre que ocorreu ali quando houve um desabamento, no mesmo estilo da história dos garimpeiros do Chile, também com final feliz.
Por fim, terminamos num leito de um rio, onde você pode comprar souvenirs com cristais de ouro ou pegar sua própria panela entrar na água e procurar por cristais do metal. Eles ensinam como faz e, segundo disseram, sempre alguém encontra alguns cristaizinhos.

Gold Coast
De Melbourne fomos à Brisbane, um vôo de duas horas que te coloca ao norte de Sydney e à 1 hora de carro de Gold Coast. Gold Coast é uma das cidades de praia mais famosas do mundo, é ali que fica a praia de Surfers Paradise, basicamente, um paraíso surfista. É o exato exemplo de como seria Balneário Camboriú sem sombra na areia e mar limpo. São praias e mais praias em sequência com um sol pra cada turista, piscinas naturais, rios que desembocam no mar, natureza selvagem, ondas e aulas de surf.

Seguramente era o lugar mais caro da viagem, acabamos escolhendo um apartamento residencial e, por mais de uma vez, comendo MacDonalds. Um problema que enfrentamos foi o de estacionamento. Nas áreas comerciais nunca tem vagas e na região residencial, os horários permitidos são curtos e rígidos. Então, por vária vezes tínhamos que voltar até o veículo e removê-lo.

A vida noturna lá, diferente de Balneário Camboriú, tem um clima de férias escolares e acaba relativamente mais cedo, mas, nem por isso pouco sedutora. Contudo, acho que foi ali onde comecei a me sentir deslocado nesses ambientes. Entretanto, também foi onde marquei uma aula de surf que nunca compareci porque fui dormir no horário em que deveria estar entrando na água.

Pouco há o que se dizer de uma cidade australiana litorânea, é um ótimo local pra se passar férias e pegar praia, mas em nada difere de quaisquer outras férias de verão no litoral. É como pegar praia na Califórnia, só que mais longe. Tirando os adolescentes e os bem jovens que têm muito o fazer, pra nós, conhecer outras praias ao longo do litoral me pareceu ser o programa mais interessante.

Houve também um fato pra virar história. Estávamos à beira de um rio que desemboca no mar. Havia ali, muita gente nadando ou remando em stand-ups uns 100 metros acima. Próximo ao encontro com o mar, só havia uma mulher e uma criancinha nadando, que passei a observar. Estávamos sentados na beirada jogando conversa fora. Em certo momento, notei, ao longo de alguns minutos, que eles não se falavam mais, não nadavam pra nenhuma direção e pareciam agitados. Tive um lampejo de me levantar e perguntar se estava tudo bem, se queriam ajuda. Foi a criancinha que respondeu com dificuldade “please”. A correnteza do mar estava empurrando a água rio acima, havia formado um banco de areia e toda a água começou a girar naquele local, dificultando nadar pra fora da corrente.
Uma cena realmente absurda: ninguém, 100 metros acima, notaria. Se não fosse nossa presença, os dois não sairiam dali, estavam exaustos até pra gritar. Pulei na água gritando que estavam se afogando. Quando agarrei a criança, a mulher, que parecia uma mãe jovem ou uma irmã mais velha, saiu lentamente boiando pra um lado, exausta. O menino repetiu “thank you” inúmeras vezes, mas, enquanto a sustentava com a cabeça pra fora, eu também não conseguia sair dali sem usar os braços.
Expliquei o que iria fazer e comecei a jogá-lo pra cima, avançava um pouco e o agarrava de novo, me aproximando do banco de areia. Gritei pro Luiz se apressar em ajudar a tirá-lo dali, comecei a me cansar também após alguma insistência em lutar com a corrente. Houve um momento em que realmente me apavorei. Se estivesse sozinho, não sei como sairia dali. Consegui me aproximar o suficiente do banco de areia pra que ele fosse puxado pelo Luiz. A mulher estava deitada na margem, exausta, não tinha forças pra gritar ou se apavorar. Voltamos pra perto dela, estava visivelmente abalada. O menino ainda disse “obrigado por salvar minha vida”. Frase clichê, mas verdadeira. Teriam se afogado ali se estivessem sozinhos e não era pouca coisa, mesmo nós dois tivemos dificuldade em nadar contra a circulação da água pra encontrar uma borda. Local extremamente perigoso, num ponto totalmente calmo e silencioso, assustador.

De nada menininho, eu já quase morri um monte de vezes também. Sempre vou lembrar de você.
Houve ainda um último dia de mergulho no mar, num sábado, a última foto que tirei na Austrália, que gosto bastante, inclusive. Daí, uma última corrida estressante ao aeroporto, trânsito, abastecer carro, devolver na locadora, pegar transfer, tudo com atraso. De lá para Sydney, de Sydney para a Johanesburgo, de lá, para Guarulhos, de Guarulhos para o Terminal Barra Funda, de lá, um ônibus pra minha cidade, algumas horas de sono e, às 7:30 da manhã, estava indo trabalhar, na segunda feira, 36 hs depois.













